Artigo – É preciso ser coerente na política

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Artigo – É preciso ser coerente na política

“Nos casos de Dilma, Cunha e Temer há um denominador comum que os políticos deveriam observar: a necessidade de se travar uma luta sem tréguas contra a corrupção, investigando e punindo os envolvidos, sejam eles de que partido forem, doa a quem doer”

“Estes são os meus princípios. Mas, se você não gosta deles, tenho outros”.  A blague do humorista norte-americano Grouxo Marx, no filme Diabo a quatro, é uma crítica corrosiva à incoerência e à hipocrisia. Eu me lembrei dessa frase depois da última votação sobre o pedido da Procuradoria-Geral da República (PGR) para investigar as acusações contra o presidente Michel Temer (PMDB).

Segundo levantamento do Instituto Liberal de São Paulo (ILISP), apenas 93 deputados – 18,1% do total de 513 – foram coerentes ao votar pelo afastamento de Dilma Rousseff (PT) e de Eduardo Cunha (PMDB-RJ) e pela admissibilidade da investigação das denúncias contra Temer.

Faltou coerência, mas sobrou fisiologismo…

Em 2015 e 2016 milhões de brasileiros foram às ruas protestar contra a corrupção que estava sendo revelada pela Operação Lava Jato. As investigações da Justiça mostravam que o PT aparelhou empresas estatais e ministérios e criou um esquema criminoso para desviar bilhões dos cofres públicos durante os 13 anos em que esteve no poder.

O impeachment de Dilma Rousseff por crime de responsabilidade – embora não se tenha provado que a presidente estivesse diretamente envolvida nos malfeitos – era imperativo porque, no mínimo, ela fechou os olhos à bandalheira. As investigações da Polícia Federal (PF) e do Ministério Público Federal (MPF)mostraram que o esquema de corrupção envolvia políticos de vários partidos e empresários de grandes empresas que pagavam propina.

“Os três casos demonstram que a Operação Lava Jato não visava, como alegam seus detratores, apenas um grupo político”

O caso de Eduardo Cunha foi emblemático dos novos tempos. O então presidente da Câmara mentiu ao afirmar à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Petrobras, em 2015, que não tinha contas no exterior. Mesmo ele tendo sido peça fundamental no impeachment de Dilma, a Casa, por ampla maioria (450 votos), entendeu que ao seu presidente faltara decoro parlamentar. Posteriormente, Cunha foi preso e condenado a 15 anos de prisão pelo juiz Sergio Moro – e ainda correm vários processos contra ele.

No caso de Michel Temer, tratava-se de duas denúncias que a Procuradoria-Geral da República fez contra o presidente da República com base nas delações primárias dos irmãos Batista, donos da JBS. Nos dois casos, vale lembrar, a Câmara votou pela admissibilidade das investigações, não pela condenação antecipada do mandatário. As denúncias eram robustas e deveriam ter sido investigadas. Mas a Câmara, por pequena maioria, entendeu que não. O povo viu e anotou.

Os três casos demonstram que a Operação Lava Jato não visava, como alegam seus detratores, apenas um grupo político; ela está de fato tentando passar o país a limpo. Nos casos de Dilma, Cunha e Temer há um denominador comum que os políticos deveriam observar: a necessidade de se travar uma luta sem tréguas contra a corrupção, investigando e punindo os envolvidos, sejam eles de que partido forem, doa a quem doer.

Esta é a exigência singela do povo brasileiro, que se manifestou claramente pela transparência. Não podemos ter dois pesos e duas medidas: pau que bate em Chico também deve bater em Francisco. Ou, como disse de maneira cáustica outro humorista (este brasileiro, Stanislaw Ponte Preta): “restaure-se a moralidade ou locupletemo-nos todos”.

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