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ARTIGO – Educação não tem idade

  • Renata Abreu

As redes sociais me fizeram chorar duas vezes nas últimas semanas. Foram choros sentidos, intensos e por motivos completamente opostos. Ambos provocados por vídeos postados. Um deles resultou em lágrimas quentes e riso solto porque as imagens inundaram minha alma e meu coração de esperança. Já o outro vídeo provocou lágrimas amargas e expressão triste pelo derrame de frases de desprezo e preconceito.

Os dois fatos que me fizeram chorar estão relacionados à área educacional, uma das bandeiras de nosso mandato como deputada federal. Considero Educação a principal ferramenta de transformação de uma sociedade. É por isso que luto para que Cidadania e Inteligência Emocional façam parte das disciplinas obrigatórias da Educação brasileira.  Com elas, os estudantes serão preparados para convivência social, tendo respeito, valorização e incentivo como tripé da formação e desenvolvimento do cidadão íntegro e sem preconceitos.

Vamos aos fatos. Chorei de felicidade ao ver o seo Beto, com beca, capelo e diploma em mãos, correndo pelas ruas de Varginha (MG) gritando ‘mãe, eu me formei na faculdade’. Naquele momento, tudo o que importava para ele era comemorar com sua genitora, que, com problemas de saúde, não pôde ir à colação de grau do filho. Detalhe: Sebastião Roberto dos Reis, o seo Beto, tem 78 anos; e a mãe, dona Geralda, 97. Foi lindo demais ver esse vídeo!

Seo Beto trabalhou por mais de 25 anos na área de contabilidade. Mas na pandemia, tudo parou. Preocupado com as restrições impostas pelo vírus, Dimas Reis queria que o pai ocupasse a cabeça, então, o incentivou a retomar os estudos, que abandonou para correr atrás do sustento da família. Beto se formou na faculdade de Gestão Financeira, na modalidade de ensino a distância, e hoje é motivo de orgulho da mãe, do filho, da neta, do bisneto, dos amigos, dos vizinhos e de milhares e milhares de brasileiros que, como eu, se emocionaram com o sonho dele realizado.

Dias depois, chorei de tristeza ao ver o vídeo onde três universitárias de biomedicina em Bauru (SP) debocham de uma colega de classe, que tem 44 anos.  “Já era para estar aposentada.” “Nem sabe o que é Google.” “Ela acha que Google é professora.” “Não é mais pra fazer faculdade.”

Que brincadeira de mau gosto. Espero mesmo que essas estudantes tenham se arrependido da maldade que fizeram contra uma pessoa que, provavelmente, depois de tantas dificuldades a superar, consegue aos 40 e poucos anos ingressar numa faculdade.

O que essas universitárias ignoram é que muitas pessoas com mais idade do que elas estão cursando faculdade no Brasil. O último Censo da Educação Superior, do Ministério da Educação, mostra que 599.977 pessoas nessa faixa etária foram matriculadas em 2021. Um aumento de 171,1% em dez anos.

Não é divertido menosprezar uma pessoa pela idade que tem. Não tem sentido, afinal os idosos de amanhã serão os jovens de hoje. As redes sociais não deveriam servir de palco para disseminação do ódio, da intolerância e do preconceito que machucam e muitas vezes deixam feridas emocionais que não cicatrizam. Etarismo é tão nocivo quanto racismo, homofobia, intolerância religiosa, misoginia e tantos preconceitos que precisam ser extirpados de nossa sociedade.

Nunca é tarde para estudar. Que a pessoa de 40, 60, 80 anos, seja a idade que for, jamais desista do que quer.  Essa mulher, assim como tantas outras e tantos outros, não merece ser humilhada, mas sim apoiada. Temos de aplaudir e incentivar cada um que vai em busca de seu sonho de estudar e se formar. Educação não tem idade.

  • Renata Abreu é deputada federal por São Paulo e presidente nacional do Podemos.

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