ARTIGO – O Brasil não pode ser surpreendido pelo que já sabe que vai acontecer

O Brasil volta a olhar para o Oceano Pacífico com preocupação. A confirmação da chegada de um novo El Niño, com possibilidade de atingir forte intensidade entre o segundo semestre deste ano e o primeiro de 2027, acende um alerta que não pode ser ignorado. O problema não é a falta de aviso. Mesmo sabendo o que pode acontecer, seguimos vulneráveis diante de uma ameaça anunciada.

Levantamento recente mostra que dois em cada três municípios brasileiros apresentam baixa ou muito baixa capacidade de adaptação a eventos extremos, como enchentes, enxurradas, alagamentos e deslizamentos. O dado revela uma realidade preocupante: conhecemos os riscos, mas ainda estamos longe de possuir a estrutura necessária para enfrentá-los.

Não se trata de uma surpresa da natureza. Trata-se de um fenômeno conhecido, estudado e que, historicamente, já deixou um rastro de perdas humanas, econômicas e ambientais em nosso país.

A cada novo episódio do El Niño, o Brasil revive um ciclo de extremos climáticos. Enquanto algumas regiões enfrentam chuvas intensas, enchentes e deslizamentos, outras sofrem com secas severas, queimadas, escassez de água e prejuízos à produção de alimentos. Os efeitos mudam de endereço, mas a consequência é sempre a mesma: sofrimento para milhões de pessoas.

Temos de recorrer a exemplos não muito distantes para entender o que está em jogo. O Rio Grande do Sul viveu há dois anos uma das maiores tragédias climáticas da história brasileira. As consequências foram catastróficas e abrangentes: cerca de 2,4 milhões de pessoas foram afetadas em 478 municípios, 183 vidas foram perdidas e os prejuízos econômicos alcançaram bilhões de reais.

Mais do que um desastre regional, aquela tragédia mobilizou o país inteiro e expôs as fragilidades da prevenção, da infraestrutura e da capacidade de resposta do poder público diante de eventos climáticos extremos.

Os alertas existiam. Como existem agora.

As projeções para os próximos meses são preocupantes. Especialistas apontam que o novo fenômeno pode provocar aumento das chuvas e do risco de enchentes no Sul, além de secas mais severas no Norte e Nordeste. O Sudeste e o Centro-Oeste também podem enfrentar ondas de calor mais intensas, baixa umidade e irregularidade das chuvas. Os efeitos atingem a população, a agricultura, o abastecimento de água, a geração de energia, a saúde pública e a economia.

Essa realidade exige mudança de postura. Não basta agir depois que a calamidade acontece. Não basta decretar emergência quando as cidades já estão submersas, as estradas destruídas e as famílias desabrigadas. A política pública mais eficiente continua sendo a prevenção.

Diante desse cenário, o país precisa avançar não apenas na preparação das cidades, mas também no aperfeiçoamento das políticas públicas voltadas à prevenção e à resposta a desastres climáticos. Mas nenhuma iniciativa, por si só, será capaz de resolver o problema. A preparação para eventos climáticos extremos precisa ser tratada como prioridade permanente de Estado.

Governos federal, estaduais e municipais devem atuar desde já na revisão dos planos de contingência, na limpeza e manutenção dos sistemas de drenagem, no monitoramento contínuo das áreas de risco, no fortalecimento das estruturas de Defesa Civil e na criação de protocolos claros para proteger a população em situações de emergência.

A ciência já fez sua parte ao identificar os riscos. Os especialistas já emitiram os alertas. Agora cabe ao poder público agir com rapidez, planejamento e responsabilidade.

O Brasil não pode alegar desconhecimento. O que está em jogo não é apenas a previsão do tempo dos próximos meses. São vidas, empregos, moradias, produção de alimentos, abastecimento de água, atividade econômica e a segurança de milhões de brasileiros.

Quando o assunto é desastre climático, a diferença entre tragédia e proteção está na preparação antecipada. O momento de agir é agora, antes que as águas subam, que os rios sequem ou que o calor extremo cobre um preço ainda mais alto da população.

Se o Brasil conhece os riscos, dispõe de tecnologia para monitorá-los e recebe alertas com antecedência, a próxima tragédia climática não poderá ser chamada de surpresa. Será consequência da incapacidade de transformar alerta em ação.

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